Cânon Bíblico: 66 ou 73 Livros?
A Bíblia contém 73 livros, incluindo os sete deuterocanônicos presentes na Septuaginta e definidos nos concílios antigos, ou apenas 66, seguindo o cânon hebraico que exclui livros sem original em hebraico comprovado?
A Igreja Católica ensina que o cânon bíblico contém 73 livros (46 AT + 27 NT), incluindo sete livros deuterocanônicos: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico (Sirácida), Baruc, 1 e 2 Macabeus, além de acréscimos a Daniel e Ester. Estes livros constavam na Septuaginta (LXX), a Bíblia grega usada pelos apóstolos e pela Igreja primitiva, e foram confirmados nos concílios de Hipona (393), Cartago (397), Florença (1442) e definitivamente em Trento (1546). A Igreja que determinou o cânon é a mesma que inclui esses livros — rejeitá-los é rejeitar a autoridade que definiu toda a Bíblia.
Principais argumentos
- A Septuaginta (LXX) — tradução grega do AT produzida entre os sécs. III-I a.C. — incluía os livros deuterocanônicos e foi a Bíblia da Igreja primitiva. A grande maioria das citações do AT no NT segue o texto grego da LXX, não o hebraico. Os apóstolos usavam a versão que continha esses livros.
- Hebreus 11:35 — 'Mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; outros foram torturados, não aceitando a libertação, para alcançarem uma melhor ressurreição.' Nenhum texto do AT protocanônico corresponde a esta descrição — a referência é inequívoca a 2 Macabeus 7, onde sete irmãos são torturados e mortos mantendo a fé na ressurreição.
- O Nestle-Aland (27ª edição do NT grego crítico) identifica 239 conexões entre o NT e os livros deuterocanônicos: Tiago 1:13 ecoa Eclesiástico 15:11-12 quase literalmente; Romanos 1:19-23 é paralelo extenso de Sabedoria 13:1-9; Mateus 27:39-43 reflete Sabedoria 2:12-20 no escárnio do 'Filho de Deus'.
- Os concílios de Hipona (393) e Cartago (397) — sob influência de Agostinho — definiram o cânon de 73 livros. Agostinho listou todos os deuterocanônicos em De Doctrina Christiana sem qualquer distinção de categoria. Os mesmos concílios que definiram os 27 livros do NT aceitos por protestantes também definiram os 46 do AT.
- Os Manuscritos do Mar Morto (Qumran, descobertos 1946-1956) encontraram fragmentos hebraicos e aramaicos de Tobias (4Q196-198) e Eclesiástico — refutando a objeção de Jerônimo de que esses livros não possuíam originais em hebraico.
- Padres da Igreja desde o século I citaram os deuterocanônicos como Escritura: Clemente de Roma (~96 d.C.) cita Sabedoria; Policarpo (~155 d.C.) cita Tobias; Ireneu (~180 d.C.) cita Sabedoria, Baruc e as adições a Daniel. O historiador protestante J.N.D. Kelly reconheceu: 'O AT da Igreja primitiva sempre incluiu os livros chamados apócrifos ou deuterocanônicos.'
- O argumento epistemológico central: a Igreja existiu antes de o NT ser escrito, e foi a Igreja que, guiada pelo Espírito Santo, discerniu quais livros eram canônicos (CCC §120). Protestantes aceitam os 27 livros do NT na autoridade dos mesmos concílios que também afirmaram os 46 do AT. Em que base se aceita o julgamento neotestamentário desses concílios mas se rejeita o veterotestamentário?
- Jerônimo — embora pessoalmente preferisse o cânon hebraico — submeteu-se à autoridade da Igreja. Sobre Judite: 'Porque este livro foi contado entre as Sagradas Escrituras pelo Concílio de Niceia, aquiesci ao vosso pedido.' Sobre Daniel: 'Que pecado cometi ao seguir o juízo das igrejas?' Mesmo o tradutor da Vulgata reconheceu que a decisão pertencia à Igreja, não ao estudioso individual.
Fontes
- Catecismo da Igreja Católica §120-130
- Concílio de Trento, Sessão IV — De Canonicis Scripturis (1546)
- Concílio de Hipona (393) e Concílio de Cartago (397)
- Concílio de Florença, Cantate Domino (1442)
- Agostinho, De Doctrina Christiana II.8 (~396 d.C.)
- Jerônimo, Prologus Galeatus (~391 d.C.)
- Nestle-Aland, Novum Testamentum Graece, 27ª edição — Aparato de referências ao AT
Posição Católica
A Igreja Católica ensina que o cânon bíblico contém 73 livros (46 AT + 27 NT), incluindo sete livros deuterocanônicos: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico (Sirácida), Baruc, 1 e 2 Macabeus, além de acréscimos a Daniel e Ester. Estes livros constavam na Septuaginta (LXX), a Bíblia grega usada pelos apóstolos e pela Igreja primitiva, e foram confirmados nos concílios de Hipona (393), Cartago (397), Florença (1442) e definitivamente em Trento (1546). A Igreja que determinou o cânon é a mesma que inclui esses livros — rejeitá-los é rejeitar a autoridade que definiu toda a Bíblia.
Principais argumentos
- A Septuaginta (LXX) — tradução grega do AT produzida entre os sécs. III-I a.C. — incluía os livros deuterocanônicos e foi a Bíblia da Igreja primitiva. A grande maioria das citações do AT no NT segue o texto grego da LXX, não o hebraico. Os apóstolos usavam a versão que continha esses livros.
- Hebreus 11:35 — 'Mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; outros foram torturados, não aceitando a libertação, para alcançarem uma melhor ressurreição.' Nenhum texto do AT protocanônico corresponde a esta descrição — a referência é inequívoca a 2 Macabeus 7, onde sete irmãos são torturados e mortos mantendo a fé na ressurreição.
- O Nestle-Aland (27ª edição do NT grego crítico) identifica 239 conexões entre o NT e os livros deuterocanônicos: Tiago 1:13 ecoa Eclesiástico 15:11-12 quase literalmente; Romanos 1:19-23 é paralelo extenso de Sabedoria 13:1-9; Mateus 27:39-43 reflete Sabedoria 2:12-20 no escárnio do 'Filho de Deus'.
- Os concílios de Hipona (393) e Cartago (397) — sob influência de Agostinho — definiram o cânon de 73 livros. Agostinho listou todos os deuterocanônicos em De Doctrina Christiana sem qualquer distinção de categoria. Os mesmos concílios que definiram os 27 livros do NT aceitos por protestantes também definiram os 46 do AT.
- Os Manuscritos do Mar Morto (Qumran, descobertos 1946-1956) encontraram fragmentos hebraicos e aramaicos de Tobias (4Q196-198) e Eclesiástico — refutando a objeção de Jerônimo de que esses livros não possuíam originais em hebraico.
- Padres da Igreja desde o século I citaram os deuterocanônicos como Escritura: Clemente de Roma (~96 d.C.) cita Sabedoria; Policarpo (~155 d.C.) cita Tobias; Ireneu (~180 d.C.) cita Sabedoria, Baruc e as adições a Daniel. O historiador protestante J.N.D. Kelly reconheceu: 'O AT da Igreja primitiva sempre incluiu os livros chamados apócrifos ou deuterocanônicos.'
- O argumento epistemológico central: a Igreja existiu antes de o NT ser escrito, e foi a Igreja que, guiada pelo Espírito Santo, discerniu quais livros eram canônicos (CCC §120). Protestantes aceitam os 27 livros do NT na autoridade dos mesmos concílios que também afirmaram os 46 do AT. Em que base se aceita o julgamento neotestamentário desses concílios mas se rejeita o veterotestamentário?
- Jerônimo — embora pessoalmente preferisse o cânon hebraico — submeteu-se à autoridade da Igreja. Sobre Judite: 'Porque este livro foi contado entre as Sagradas Escrituras pelo Concílio de Niceia, aquiesci ao vosso pedido.' Sobre Daniel: 'Que pecado cometi ao seguir o juízo das igrejas?' Mesmo o tradutor da Vulgata reconheceu que a decisão pertencia à Igreja, não ao estudioso individual.
Fontes
- Catecismo da Igreja Católica §120-130
- Concílio de Trento, Sessão IV — De Canonicis Scripturis (1546)
- Concílio de Hipona (393) e Concílio de Cartago (397)
- Concílio de Florença, Cantate Domino (1442)
- Agostinho, De Doctrina Christiana II.8 (~396 d.C.)
- Jerônimo, Prologus Galeatus (~391 d.C.)
- Nestle-Aland, Novum Testamentum Graece, 27ª edição — Aparato de referências ao AT
Posição Protestante
A tradição protestante sustenta que o cânon bíblico contém 66 livros (39 AT + 27 NT), seguindo o cânon hebraico (Tanakh) para o AT. Os sete livros deuterocanônicos são considerados apócrifos — úteis para leitura mas não inspirados nem normativos para doutrina. A comunidade judaica, a quem foram confiados os oráculos de Deus (Rm 3:2), nunca os incluiu em seu cânon. Jerônimo, tradutor da Vulgata, distinguiu claramente entre livros canônicos e eclesiásticos. Lutero os manteve em apêndice: 'úteis e bons para ler, mas não iguais à Sagrada Escritura'.
Principais argumentos
- Romanos 3:2 — 'Aos judeus foram confiados os oráculos de Deus.' Se os oráculos de Deus foram confiados aos judeus, o cânon judaico (Tanakh, 39 livros) é o padrão legítimo para o AT. Os judeus nunca incluíram os deuterocanônicos em sua Escritura sagrada.
- Mateus 23:35 / Lucas 11:51 — Jesus menciona 'desde o sangue de Abel até o sangue de Zacarias', abrangendo de Gênesis a 2 Crônicas — o primeiro e o último livros na ordenação do cânon hebraico. Jesus delimitou implicitamente o cânon do AT ao Tanakh.
- Jerônimo (~391 d.C.), o maior hebraísta da antiguidade e tradutor da Vulgata, distinguiu explicitamente entre livros 'canônicos' (hebraicos) e 'eclesiásticos' (deuterocanônicos) no Prologus Galeatus. Ele traduziu os deuterocanônicos por obediência à Igreja, mas pessoalmente não os considerava base para doutrina.
- Nenhum livro deuterocanônico contém frases como 'Assim diz o Senhor' ou reivindicação explícita de inspiração divina. O próprio autor de 2 Macabeus se desculpa pela qualidade de sua escrita (2Mac 15:38-39) — linguagem incompatível com texto divinamente inspirado.
- Os deuterocanônicos contêm problemas doutrinários e históricos: 2 Macabeus 12:43-45 fundamenta a oração pelos mortos e o purgatório; Tobias apresenta um anjo usando magia e se identificando com identidade falsa; Judite 1:1 chama Nabucodonosor de 'rei da Assíria em Nínive' — erro histórico grosseiro, pois ele era babilônio e Nínive já havia caído.
- O NT nunca cita os deuterocanônicos com fórmula de autoridade ('está escrito', 'como diz a Escritura'). As 239 'conexões' identificadas são alusões e paralelos temáticos, não citações diretas. Judas cita 1 Enoque (Jd 1:14-15), Paulo cita poetas gregos (At 17:28, Tt 1:12, 1Co 15:33) — citar uma fonte não a torna canônica.
- Atanásio (367 d.C.) — o mesmo padre que primeiro listou os exatos 27 livros do NT — excluiu os deuterocanônicos de sua lista do AT na 39ª Carta Festiva, classificando-os como livros 'designados pelos Padres para serem lidos' mas 'não incluídos no Cânon'. Se ele é autoridade para o NT, deveria ser para o AT também.
- A Confissão de Westminster (I.3) define claramente: 'Os livros comumente chamados Apócrifos, não sendo de inspiração divina, não são parte do cânon da Escritura; e portanto não têm autoridade na Igreja de Deus, nem devem ser de outro modo aprovados ou usados senão como quaisquer outros escritos humanos.' Lutero os manteve em apêndice separado de sua Bíblia (1534).
Fontes
- Confissão de Fé de Westminster, Cap. I, §2-3
- Confissão Belga, Art. 6 — Da Diferença entre os Livros Canônicos e os Apócrifos
- 39 Artigos de Religião, Art. VI — Da Suficiência da Escritura
- Jerônimo, Prologus Galeatus (~391 d.C.)
- Atanásio, 39ª Carta Festiva (367 d.C.)
- Martinho Lutero, Prefácio aos Livros Apócrifos (1534)
Pontos de Convergência
- 1Ambas as tradições concordam plenamente sobre os 27 livros do Novo Testamento e sobre 39 livros do Antigo Testamento. A disputa envolve apenas 7 livros (mais adições) — um conjunto relativamente pequeno dentro do corpus bíblico total.
- 2Ambos reconhecem que Jerônimo e Agostinho divergiram sobre o cânon no século IV-V: Jerônimo preferiu o cânon hebraico, Agostinho defendeu o cânon mais amplo. A tensão é um dado histórico aceito por ambos.
- 3Lutero não descartou os deuterocanônicos como lixo — os manteve em sua Bíblia de 1534 como apêndice, rotulando-os 'úteis e bons para ler'. A tradição anglicana (39 Artigos, Art. VI) os reconhece como leitura edificante. O desprezo total por esses livros é atitude moderna, não reformadora.
- 4Ambos concordam que a mera citação de uma fonte não a torna canônica — Paulo citou poetas gregos e Judas citou 1 Enoque sem que isso os tornasse Escritura. Este princípio é aceito por ambos os lados.
- 5Os Manuscritos do Mar Morto (Qumran) são reconhecidos por ambos como evidência histórica significativa: fragmentos hebraicos de Tobias e Eclesiástico demonstram que esses livros circulavam em hebraico/aramaico no período do Segundo Templo — um fato que modifica o argumento de Jerônimo sobre a ausência de originais hebraicos.
Análise Técnica
A disputa sobre o cânon é a controvérsia mais meta-teológica do debate católico-protestante, porque precede logicamente todas as outras: antes de debater o que a Bíblia ensina, é preciso concordar sobre o que é a Bíblia. O argumento católico mais forte é epistemológico: protestantes aceitam os 27 livros do NT na autoridade dos mesmos concílios (Hipona 393, Cartago 397) que simultaneamente definiram os 46 do AT — por que aceitar metade do julgamento? O argumento protestante mais forte é textual: Romanos 3:2 atribui aos judeus a custódia dos 'oráculos de Deus', e os judeus nunca incluíram os deuterocanônicos. Historicamente, a questão nunca foi tão simples quanto ambos os lados sugerem: Jerônimo (herói protestante nesta causa) submeteu-se à autoridade eclesiástica e traduziu os livros que pessoalmente questionava; Atanásio (herói católico por definir o NT) excluiu os deuterocanônicos de sua lista do AT. A tese de Jacques Le Goff e outros historiadores mostra que a 'definição definitiva' do cânon só ocorreu em Trento (1546) — o que significa que por 1.500 anos a questão permaneceu oficialmente aberta, com teólogos medievais como Nicolau de Lira, João Damasceno e o próprio Cardeal Caetano (consultor do papa no tempo de Lutero) expressando reservas sobre a plena canonicidade dos deuterocanônicos. A descoberta dos Manuscritos do Mar Morto (1946-1956) complicou a narrativa protestante ao revelar originais hebraicos de Tobias e Eclesiástico em Qumran, mas também não resolveu a questão: presença em Qumran demonstra circulação, não necessariamente canonicidade. A pergunta de fundo permanece: quem tem autoridade para definir o cânon — a comunidade judaica original, a Igreja apostólica, ou o texto que se autoautentica?