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Cânon Bíblico: 66 ou 73 Livros?

A Bíblia contém 73 livros, incluindo os sete deuterocanônicos presentes na Septuaginta e definidos nos concílios antigos, ou apenas 66, seguindo o cânon hebraico que exclui livros sem original em hebraico comprovado?

Publicado em 21 de março de 2026

A Igreja Católica ensina que o cânon bíblico contém 73 livros (46 AT + 27 NT), incluindo sete livros deuterocanônicos: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico (Sirácida), Baruc, 1 e 2 Macabeus, além de acréscimos a Daniel e Ester. Estes livros constavam na Septuaginta (LXX), a Bíblia grega usada pelos apóstolos e pela Igreja primitiva, e foram confirmados nos concílios de Hipona (393), Cartago (397), Florença (1442) e definitivamente em Trento (1546). A Igreja que determinou o cânon é a mesma que inclui esses livros — rejeitá-los é rejeitar a autoridade que definiu toda a Bíblia.

Principais argumentos

  • A Septuaginta (LXX) — tradução grega do AT produzida entre os sécs. III-I a.C. — incluía os livros deuterocanônicos e foi a Bíblia da Igreja primitiva. A grande maioria das citações do AT no NT segue o texto grego da LXX, não o hebraico. Os apóstolos usavam a versão que continha esses livros.
  • Hebreus 11:35 — 'Mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; outros foram torturados, não aceitando a libertação, para alcançarem uma melhor ressurreição.' Nenhum texto do AT protocanônico corresponde a esta descrição — a referência é inequívoca a 2 Macabeus 7, onde sete irmãos são torturados e mortos mantendo a fé na ressurreição.
  • O Nestle-Aland (27ª edição do NT grego crítico) identifica 239 conexões entre o NT e os livros deuterocanônicos: Tiago 1:13 ecoa Eclesiástico 15:11-12 quase literalmente; Romanos 1:19-23 é paralelo extenso de Sabedoria 13:1-9; Mateus 27:39-43 reflete Sabedoria 2:12-20 no escárnio do 'Filho de Deus'.
  • Os concílios de Hipona (393) e Cartago (397) — sob influência de Agostinho — definiram o cânon de 73 livros. Agostinho listou todos os deuterocanônicos em De Doctrina Christiana sem qualquer distinção de categoria. Os mesmos concílios que definiram os 27 livros do NT aceitos por protestantes também definiram os 46 do AT.
  • Os Manuscritos do Mar Morto (Qumran, descobertos 1946-1956) encontraram fragmentos hebraicos e aramaicos de Tobias (4Q196-198) e Eclesiástico — refutando a objeção de Jerônimo de que esses livros não possuíam originais em hebraico.
  • Padres da Igreja desde o século I citaram os deuterocanônicos como Escritura: Clemente de Roma (~96 d.C.) cita Sabedoria; Policarpo (~155 d.C.) cita Tobias; Ireneu (~180 d.C.) cita Sabedoria, Baruc e as adições a Daniel. O historiador protestante J.N.D. Kelly reconheceu: 'O AT da Igreja primitiva sempre incluiu os livros chamados apócrifos ou deuterocanônicos.'
  • O argumento epistemológico central: a Igreja existiu antes de o NT ser escrito, e foi a Igreja que, guiada pelo Espírito Santo, discerniu quais livros eram canônicos (CCC §120). Protestantes aceitam os 27 livros do NT na autoridade dos mesmos concílios que também afirmaram os 46 do AT. Em que base se aceita o julgamento neotestamentário desses concílios mas se rejeita o veterotestamentário?
  • Jerônimo — embora pessoalmente preferisse o cânon hebraico — submeteu-se à autoridade da Igreja. Sobre Judite: 'Porque este livro foi contado entre as Sagradas Escrituras pelo Concílio de Niceia, aquiesci ao vosso pedido.' Sobre Daniel: 'Que pecado cometi ao seguir o juízo das igrejas?' Mesmo o tradutor da Vulgata reconheceu que a decisão pertencia à Igreja, não ao estudioso individual.

Fontes

  • Catecismo da Igreja Católica §120-130
  • Concílio de Trento, Sessão IV — De Canonicis Scripturis (1546)
  • Concílio de Hipona (393) e Concílio de Cartago (397)
  • Concílio de Florença, Cantate Domino (1442)
  • Agostinho, De Doctrina Christiana II.8 (~396 d.C.)
  • Jerônimo, Prologus Galeatus (~391 d.C.)
  • Nestle-Aland, Novum Testamentum Graece, 27ª edição — Aparato de referências ao AT

Pontos de Convergência

  • 1Ambas as tradições concordam plenamente sobre os 27 livros do Novo Testamento e sobre 39 livros do Antigo Testamento. A disputa envolve apenas 7 livros (mais adições) — um conjunto relativamente pequeno dentro do corpus bíblico total.
  • 2Ambos reconhecem que Jerônimo e Agostinho divergiram sobre o cânon no século IV-V: Jerônimo preferiu o cânon hebraico, Agostinho defendeu o cânon mais amplo. A tensão é um dado histórico aceito por ambos.
  • 3Lutero não descartou os deuterocanônicos como lixo — os manteve em sua Bíblia de 1534 como apêndice, rotulando-os 'úteis e bons para ler'. A tradição anglicana (39 Artigos, Art. VI) os reconhece como leitura edificante. O desprezo total por esses livros é atitude moderna, não reformadora.
  • 4Ambos concordam que a mera citação de uma fonte não a torna canônica — Paulo citou poetas gregos e Judas citou 1 Enoque sem que isso os tornasse Escritura. Este princípio é aceito por ambos os lados.
  • 5Os Manuscritos do Mar Morto (Qumran) são reconhecidos por ambos como evidência histórica significativa: fragmentos hebraicos de Tobias e Eclesiástico demonstram que esses livros circulavam em hebraico/aramaico no período do Segundo Templo — um fato que modifica o argumento de Jerônimo sobre a ausência de originais hebraicos.

Análise Técnica

A disputa sobre o cânon é a controvérsia mais meta-teológica do debate católico-protestante, porque precede logicamente todas as outras: antes de debater o que a Bíblia ensina, é preciso concordar sobre o que é a Bíblia. O argumento católico mais forte é epistemológico: protestantes aceitam os 27 livros do NT na autoridade dos mesmos concílios (Hipona 393, Cartago 397) que simultaneamente definiram os 46 do AT — por que aceitar metade do julgamento? O argumento protestante mais forte é textual: Romanos 3:2 atribui aos judeus a custódia dos 'oráculos de Deus', e os judeus nunca incluíram os deuterocanônicos. Historicamente, a questão nunca foi tão simples quanto ambos os lados sugerem: Jerônimo (herói protestante nesta causa) submeteu-se à autoridade eclesiástica e traduziu os livros que pessoalmente questionava; Atanásio (herói católico por definir o NT) excluiu os deuterocanônicos de sua lista do AT. A tese de Jacques Le Goff e outros historiadores mostra que a 'definição definitiva' do cânon só ocorreu em Trento (1546) — o que significa que por 1.500 anos a questão permaneceu oficialmente aberta, com teólogos medievais como Nicolau de Lira, João Damasceno e o próprio Cardeal Caetano (consultor do papa no tempo de Lutero) expressando reservas sobre a plena canonicidade dos deuterocanônicos. A descoberta dos Manuscritos do Mar Morto (1946-1956) complicou a narrativa protestante ao revelar originais hebraicos de Tobias e Eclesiástico em Qumran, mas também não resolveu a questão: presença em Qumran demonstra circulação, não necessariamente canonicidade. A pergunta de fundo permanece: quem tem autoridade para definir o cânon — a comunidade judaica original, a Igreja apostólica, ou o texto que se autoautentica?